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Tradição Artesãos mantêm produção de rede em Jaguaruana

16/12/2012



Diário do Nordeste
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Tradição

Artesãos mantêm produção de rede em Jaguaruana

16.12.2012



A cidade do Vale do Jaguaribe ainda se destaca quando o assunto é fabricação de redes de dormir

A rede de dormir tornou-se, ao longo de um século, peça característica da cultura cearense. Em Jaguaruana, a arte está no dia a dia das famílias que sobrevivem do trabalho manual fotos: ellen freitas

Jaguaruana É no vai e vem do barulhento tear elétrico que as dezenas de pequenas fábricas, muitas localizadas no Centro da cidade, continuam mantendo a arte centenária de produção da rede de dormir. Os artesãos possuem grande importância na tarefa, ao realizarem o trabalho minucioso, que deixa a peça final com a beleza e simplicidade que tornou o objeto tão famoso no mundo.

A história de, praticamente, todas as famílias da cidade passa pelo feitio da rede de dormir. Herança dos indígenas, foi do antigo tear de madeira que surgiram os primeiros tecidos da rede de algodão, que ganhavam as cores e as formas dos detalhes pelo esforço dos pequenos fabricantes. O processo manual exige habilidade e conhecimento do tecelão. Comunidades rurais como Sítio Jureminha, Lagoa Vermelha e Córrego do Machado ainda produzem redes como antigamente. Do tingimento do fio cru à preparação da trama para a tecelagem, cada etapa é realizada por um membro da família, que carrega no sangue a arte do antigo ofício.

Com a modernidade, o processo de tecelagem ganhou as máquinas, mas ainda necessita das mãos do homem para fazer o trabalho. Do urdimento, que é o preparo do fio do algodão para ir ao tear, até a emenda dos fios, o trabalho exige atenção para que o tecido saia perfeito. Cada máquina fabrica, em média, 350 metros de tecido, que confecciona 30 redes de 2,5 metros cada. Um rolo de tecido demora quatro dias para ficar pronto, tecendo durante oito horas diárias. Todas as etapas para a confecção da rede duram 15 dias.

Na fábrica de José Pinheiro Júnior, "Artesão Nato", são utilizados seis teares elétricos. Ele conta que, no começo, foi bem diferente. "Minha mãe começou esse trabalho, ainda de forma bem rústica, e eu resolvi tomar de conta. Comecei com dois teares manuais, produzindo cerca de dez peças por dia", conta Pinheiro. Hoje, sua pequena fábrica, ao lado de sua residência, possui seis máquinas que trabalham diariamente a todo vapor.

Ele presidiu por oito anos o Sindicato dos Fabricantes de Redes de Jaguaruana (Asfarja) e elegeu seu sucessor. O artesão acompanhou de perto o desenvolvimento da indústria da rede no município. "Entre indústrias formais e pequenos artesãos, somamos cerca de 200 fabricantes", afirma.

De acordo com dados do Arranjo Produtivo Local da rede de dormir (APL), em 2004, a atividade gerava em torno de 5 mil empregos sendo 1000 diretos, dentro das fábricas de tear, e 4 mil indiretos, artesãos terceirizados que trabalham no acabamento da rede. Em sua fábrica, Pinheiro trabalha diretamente com dez funcionários, que cuidam da etapa de preparação dos fios e tear, e no transporte para cerca de 60 famílias que ele terceiriza para realizar o processo de colocação dos cordões, punho e varanda.

Segundo ele, o levantamento do APL não teve atualização, desde aquele ano. Porém, estima que não aconteceram mudanças expressivas no setor. "Hoje, pouca coisa mudou", disse ele.

O comércio de rede teve seu auge por volta dos anos 70 e 80 quando era vendida para os Estados vizinhos. A Paraíba foi grande compradora da produção local. Nos anos 90, com o aparecimento de indústrias mais modernas do setor em outros Estados do Nordeste, Jaguaruana foi perdendo alguns compradores, mas foi se destacando no comércio internacional da peça. "Entre os anos de 1990 e 2000, fabricávamos quase exclusivamente para Alemanha, França e Portugal. Enviávamos para a Europa uma média de três mil redes por mês", afirma Pinheiro.

As fábricas são constituídas dentro dos núcleos familiares, mais da metade delas espalhada na sede do município. Geralmente, funcionam em pequenos locais, sem ventilação, onde o barulho dos pentes tecendo o pano ainda causa incômodo aos que realizam essa etapa. A tecelagem Filhos da Santa, uma das mais tradicionais do município, está na família de Paulo Augusto há 55 anos. Sua mãe deu início ao ofício de fabricar a rede e, ao longo do tempo, Augusto e os quatro irmãos se dedicaram à arte. Hoje, cada um possui seu próprio tear, envolvendo toda a família no negócio.

Nenhum dos personagens da trama da rede sabe ao certo porque a peça escolheu este município para se destacar. O que se sabe é que a atividade é centenária e que o trabalho realizado com a ajuda dos artesãos deixa o produto mais especial. Se for rede de dormir, tem que ser de Jaguaruana. Em outras épocas, a cidade foi grande produtora de algodão, se não a maior, mas a de melhor qualidade, segundo cita o historiador Cicinato Ferreira Neto, em seu livro "Estudos de História Jaguaribana". "Considerava-se o algodão da região de Jequi (Jaguaruana) o melhor do Ceará". Talvez se encontre aí a raiz do artesanato da rede.

Exemplo

Há 30 anos dona Zita, faz o trabalho de acabamento das redes. Conta que já trabalhos para diversos fabricantes. Agricultora, o serviço da rede complementava o salário da família.

"Sempre trabalhei na agricultura, mas tudo de acabamento de rede eu sei fazer. Aprendi quando morava ainda na zona rural". Hoje, aposentada, ela continua fazendo o trabalho em meio expediente e ganha cerca de meio salário mínimo, que ajuda a manter o filho na faculdade, em Limoeiro do Norte.

Algumas das muitas histórias que cercam a produção da rede, não só em Jaguaruana, mas em todo o Ceará, são contadas e registradas no livro da fotógrafa Sheila Oliveira. A obra resulta de pesquisa de dez anos sobre a cultura da rede. Ela visitou cenários importantes onde a arte é realizada até hoje. O livro "Redes de Dormir" foi lançado em setembro e será apresentado em janeiro no Memorial da Carnaúba. Segundo Afro Negrão, presidente da entidade, "o livro é um resgate da cultura e da história do município de Jaguaruana".

Atividade é fonte de renda familiar

É no torcer do fio, no gradear, no "empunhamento" e na prega da varanda que a rede de dormir ganha a característica dos artesãos locais. São partes do trabalho que exigem o conhecimento que máquina alguma é capaz de fazer

Jaguaruana O que para uns é descanso, para outros é trabalho e a principal fonte de renda da família. Seja nas calçadas ao fim da tarde ou no meio da sala ouvindo o velho rádio, o trabalho artesanal da rede une famílias e vai escrevendo histórias em cada laçada.

Os depoimentos têm o mesmo começo, mas vão ganhando desfechos diferentes e únicos. É na sala de casa onde tudo começa. É a mãe que aprendeu com a avó a montar a preciosa rede de dormir que dará bom descanso a outras pessoas. É preciso técnica e inteligência para unir cada uma das peças que chegam, vindas de outras mãos.

Foi vendo a mãe puxar cordão de punho que a dona de casa Claudiana Rebouças, 31 anos, aprendeu as tarefas mais fáceis do ofício, aos 5 anos de idade. Há dez anos ela realiza o trabalho e auxilia no sustento dos filhos e da casa, junto com o marido.

De família humilde, o pai trabalhava como servente de pedreiro e a mãe agricultora e foi com o ofício das redes de dormir que ela e sua família teceram suas vidas.

É no torcer do fio, no gradear, no "empunhamento" e na prega da varanda que a rede de dormir ganha a característica dos artesãos locais. São partes do trabalho que exigem o conhecimento que máquina alguma é capaz de fazer com tamanha perfeição como o artesão.

Divisão de tarefas

No bairro de Tabuleiro, onde Claudiana mora, todas as famílias fazem uma dessas tarefas. A indústria da rede de dormir é a principal geradora de empregos do município, maioria informal, empregando cerca de 4 mil pessoas. "A gente recebe das fábricas e vai fazendo as partes, um coloca o cordão, a renda, o punho até a rede ficar pronta". Ela conta que o trabalho de puxar o cordão do punho e pregar a varanda é o que custa melhor.

Ganho

As famílias ganham por produção. Maridos, esposas, avós e netos dedicam-se exclusivamente à atividade manufatureira. Claudiana monta 35 redes por dia, com a ajuda dos dois filhos e ganha, em média, R$ 500 por mês. O dinheiro vai para as despesas de casas que, juntamente com o ganho do marido, que trabalha como auxiliar de pedreiro, sustenta a família.

A realidade é muito parecida entre as famílias deste e de outros bairros. A falta de empregos mantem a atividade como principal alternativa. "Aqui em Jaguaruana, as pessoas trabalham mesmo na rede. Tem o funcionalismo público, mas é pouca gente que trabalha", afirma Claudiana. Particularmente, a dona de casa afirma gostar do trabalho que aprendeu a fazer desde criança.

ELLEN FREITAS
COLABORADORA

Mais informações:

Tecelagem Artesão Nato

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